Isso, no entanto, foi algo que eu não observei só entre os membros da AIESEC. As pessoas aqui são bastante simpáticas, gentis e se dispõem muito a lhe ajudar, confiando no que você fala mesmo sendo desconhecido.
Particularmente, quando estamos no Brasil o pressuposto é que se uma pessoa desconhecida vem falar com a gente, existe uma possibilidade de ela esteja lhe querendo passar a perna. Nós brasileiros somos bastante "pé atrás" em diversas situações, como alguém lhe propor trocar notas de dinheiro entre outras situações de comum precaução, exemplos como as que envolvem dinheiro, promessas, favores, entre outros. Com certeza isso decorre da cultura da "malandragem" brasileira, tão bem demonstrada pela famosa Lei de Gérson.
Na Itália, porém, as coisas são um pouco diferentes, pelo que pude observar até agora nessas duas primeiras semanas.
A Passagem do Ônibus
Uma ocasião foi a festa de carnaval da Faculdade de Engenharia, aqui em Ancona. O lugar era LONGE (e ainda no topo deu uma elevação gigante). Apesar da cidade ter apenas cem mil habitantes ela é bem espalhada, ainda entremeada por colinas pra não dar vontade de ir muito além do centro histórico.
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| Na festa de carnaval da Faculdade de Engenharia, quase todo mundo fantasiado. |
Como ir até lá seria impossível a pé, recebemos instuções via da AIESEC para irmos até a Piazza Cavour no centro histórico e pegar o ônibus linha 1/4, solicitando parar na "festa della ingegneria". Como não moro com os outros intercambistas e até então não tinha celular, fui até a praça na hora indicada, 20h30. Chegando lá havia uma grande arruaça na esquina, com muitas pessoas vestidas com fantasias e em particular quatro gurias completamente ensandecidas de álcool vestindo... carros! Haviam montado uma maquete de carro de papelão em volta do corpo e cantavam músicas bagaceiras em italiano.
Aguardando um pouco, logo veio o ônibus e, com ele, a lembraça de que no dia anterior eu tinha comprado uma passagem em um bar! Rapidamente enquanto a galera entrava no ônibus perguntei pra todos os mais próximos de mim (em italiano) se eu precisava comprar a passagem em alguma loja. Me disseram que era possível comprar no ônibus.
Entrei no ônibus e minha ignorância se mostrou presente: a passagem era 1,40 euro e eu só tinha 20 euros. Digo "só" porque era 1,40 em moedas, e eu apenas com uma nota de 20 euros. Sem trocado, ônibus saindo e eu ainda atrasado pra ir até em casa e voltar. Vendo a situação, o cara que eu havia pedido por informações e que havia me informado sobre comprar a passagem no ônibus, aparentando uns 18 ou 19 anos, instantaneamente puxou a carteira e pagou a passagem pra mim! Agradeci e fomos conversando em italiano/inglês a viagem inteira. Ele estava indo pra festa também e lá prometi pagar uma bebida em agradecimento, no entanto não nos encontramos mais no fim das contas.
Pensei: -"Nossa, isso seria bem mais difícil de acontecer no Brasil!". Não digo que não acontece, mas a naturalidade com que ele e os amigos puxaram a carteira pra ajudar foi de certa forma surpreendente.
Dinheiro Perdido
O segundo momento que isso saltou à vista foi ontem, domingo. Andando com a Anastasia (intercambista da Moldávia) pelo centro, compramos alguns doces, chocolates e castanhas em uma tenda de doces na Piazza Cavour.
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| A barraquinha de doces na praça. |
Saímos de lá e andamos um pouco pelo centro. Encontramos o Akaash da Índia e o Paulo, de Belo Horizonte andando pelo calçadão e decidimos tomar um gelato (sorvete fenômeno, escreverei sobre ele adiante no Blog). Ao chegarmos à Gelateria, descobri que estava sem dinheiro! Havia trazido 20 euros no bolso e lembrava de ter desembolsado para pagar os doces fazia uma hora, mas não lembrava de ter recebido o troco de volta.
Voltamos lá. Pedi ajuda ao Paulo caso eles não entendessem meu italiano e que a Anastasia se fizesse presente pra que eles pudessem lembrar melhor de nós. Expliquei o acontecido em inglês (eles entendiam, mas falavam pouco). A menina que havia me atendido (foto) começou a conversar com seu companheiro e mais outra amiga. Após um breve momento de interação onde ela perguntou algumas coisas, eles pegaram os 17,50 (aproximadamente R$ 42,00) de troco e me devolveram! Perguntei ao Paulo o que eles haviam dito:
- "Cara, eles falaram que deixaram o dinheiro em cima do balcão na hora, mas parece que uma senhora pegou errado achando que era o troco dela.", ele me disse.
Perguntei para eles se realmente estavam certo disso, e se não era eu que tinha errado. Em resposta eles me falaram pra não me preocupar, que podia ficar com meu dinheiro de volta sem problemas. Não estavam de cara feia nem nada. Agradeci gentilmente a menina e ela me sorriu de volta. Caso terminado.
Akaash ficou abismado. -"What?", dizia ele, -"Isso NUNCA aconteceria na Índia.". Nem no Brasil, falamos eu e Paulo. Eles simplesmente confiaram no que havíamos dito. No Brasil a resposta seria "Infelizmente não podemos fazer nada pra lhe ajudar."
Cultura Diferente
Esses foram dois casos que acho que ilustram a diferença de pensamento e comportamento dos Italianos. As pessoas confiam no sistema e que as coisas dão certo. Por vezes vejo coisas simples deixadas por aí, como um carrinho de bebê do lado da porta do meu edifício ou bicicletas paradas na rua, sem que ninguém roube (muito difícil no Brasil). Existem muitos estrangeiros, mas apesar de talvez eles serem muquiranas como o Turco que eu comprei uma luva no mercado público, acredito que eles não fariam nada que possam se arrepender depois. Vitrines de lojas com produtos caríssimos ficam sem grade à noite, iluminadas a qualquer hora. É possível andar na rua de noite a qualquer hora sozinho sem enfrentar problemas.
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| Já pensou em vitrines sem grades no Brasil? Cada peça principal custa por volta de 1000 euros. Só nessa vitrine deve ter uns 8000 euros. Na foto: Mayara, de Maringá. |
Algumas pessoas da AIESEC me falaram que algo perigoso é pegar carona, que existe um medo que seja algum motorista maníaco que possa te assassinar ou algo assim. No entanto, quando perguntados sobre a possibilidade de ser assaltado na rua por aqui e que eu havia lido em algum lugar que poderia ser perigoso, eles falaram que é praticamente impossível (talvez nos estados mais ao sul), se mostrando claramente incrédulos com a possibilidade e ficaram olhando pra cara um do outro tentando imaginar uma situação em que isso poderia ocorrer, sem chegar a um exemplo. Disseram no entanto que é óbvio que deixar coisas câmeras ou celulares largados por aí é dar chance pro azar.
Desde a solicitude em alguém desviar um pouco do caminho pra lhe mostrar aonde é algum lugar, ou lhe dar carona não sendo um maníaco estuprador (como aconteceu com a Yarelisse de Porto Rico que ganhou uma carona de uma mulher até a escola) como mesmo pagarem algo pra você em caso de necessidade, essa é uma riqueza cultural da Itália que seria muito bem-vinda no Brasil.
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Um abraço e nos vemos pelo mundo!








