segunda-feira, 14 de março de 2011

Italianos e a gentileza

Quando cheguei, uma coisa muito legal que me aconteceu foi dois membros da AIESEC Ancona, Noemi (diretora de intercâmbios) e Alvin, terem ido três vezes na estação de trem ver se eu chegava. Havia dito que estaria no chegando no trem das 18h e, como não cheguei, eles foram lá às 20h30 e também no último trem, à 00h45. Muito gentil da parte deles a preocupação em não me deixar perdido de madrugada em Ancona!

Isso, no entanto, foi algo que eu não observei só entre os membros da AIESEC. As pessoas aqui são bastante simpáticas, gentis e se dispõem muito a lhe ajudar, confiando no que você fala mesmo sendo desconhecido.



Particularmente, quando estamos no Brasil o pressuposto é que se uma pessoa desconhecida vem falar com a gente, existe uma possibilidade de ela esteja lhe querendo passar a perna. Nós brasileiros somos bastante "pé atrás" em diversas situações, como alguém lhe propor trocar notas de dinheiro entre outras situações de comum precaução, exemplos como as que envolvem dinheiro, promessas, favores, entre outros. Com certeza isso decorre da cultura da "malandragem" brasileira, tão bem demonstrada pela famosa Lei de Gérson.

Na Itália, porém, as coisas são um pouco diferentes, pelo que pude observar até agora nessas duas primeiras semanas.

A Passagem do Ônibus

Uma ocasião foi a festa de carnaval da Faculdade de Engenharia, aqui em Ancona. O lugar era LONGE (e ainda no topo deu uma elevação gigante). Apesar da cidade ter apenas cem mil habitantes ela é bem espalhada, ainda entremeada por colinas pra não dar vontade de ir muito além do centro histórico.

Na festa de carnaval da Faculdade de Engenharia, quase todo mundo fantasiado.

Como ir até lá seria impossível a pé, recebemos instuções via da AIESEC para irmos até a Piazza Cavour no centro histórico e pegar o ônibus linha 1/4, solicitando parar na "festa della ingegneria". Como não moro com os outros intercambistas e até então não tinha celular, fui até a praça na hora indicada, 20h30. Chegando lá havia uma grande arruaça na esquina, com muitas pessoas vestidas com fantasias e em particular quatro gurias completamente ensandecidas de álcool vestindo... carros! Haviam montado uma maquete de carro de papelão em volta do corpo e cantavam músicas bagaceiras em italiano.

 Aguardando um pouco, logo veio o ônibus e, com ele, a lembraça de que no dia anterior eu tinha comprado uma passagem em um bar! Rapidamente enquanto a galera entrava no ônibus perguntei pra todos os mais próximos de mim (em italiano) se eu precisava comprar a passagem em alguma loja. Me disseram que era possível comprar no ônibus. 

Entrei no ônibus e minha ignorância se mostrou presente: a passagem era 1,40 euro e eu só tinha 20 euros. Digo "só" porque era 1,40 em moedas, e eu apenas com uma nota de 20 euros. Sem trocado, ônibus saindo e eu ainda atrasado pra ir até em casa e voltar. Vendo a situação, o cara que eu havia pedido por informações e que havia me informado sobre comprar a passagem no ônibus, aparentando uns 18 ou 19 anos, instantaneamente puxou a carteira e pagou a passagem pra mim! Agradeci e fomos conversando em italiano/inglês a viagem inteira. Ele estava indo pra festa também e lá prometi pagar uma bebida em agradecimento, no entanto não nos encontramos mais no fim das contas. 

Pensei: -"Nossa, isso seria bem mais difícil de acontecer no Brasil!". Não digo que não acontece, mas a naturalidade com que ele e os amigos puxaram a carteira pra ajudar foi de certa forma surpreendente. 

Dinheiro Perdido 

O segundo momento que isso saltou à vista foi ontem, domingo. Andando com a Anastasia (intercambista da Moldávia) pelo centro, compramos alguns doces, chocolates e castanhas em uma tenda de doces na Piazza Cavour.


A barraquinha de doces na praça.

Saímos de lá e andamos um pouco pelo centro. Encontramos o Akaash da Índia e o Paulo, de Belo Horizonte andando pelo calçadão e decidimos tomar um gelato (sorvete fenômeno, escreverei sobre ele adiante no Blog). Ao chegarmos à Gelateria, descobri que estava sem dinheiro! Havia trazido 20 euros no bolso e lembrava de ter desembolsado para pagar os doces fazia uma hora, mas não lembrava de ter recebido o troco de volta. 

Voltamos lá. Pedi ajuda ao Paulo caso eles não entendessem meu italiano e que a Anastasia se fizesse presente pra que eles pudessem lembrar melhor de nós. Expliquei o acontecido em inglês (eles entendiam, mas falavam pouco). A menina que havia me atendido (foto) começou a conversar com seu companheiro e mais outra amiga. Após um breve momento de interação onde ela perguntou algumas coisas, eles pegaram os 17,50 (aproximadamente R$ 42,00) de troco e me devolveram! Perguntei ao Paulo o que eles haviam dito: 

- "Cara, eles falaram que deixaram o dinheiro em cima do balcão na hora, mas parece que uma senhora pegou errado achando que era o troco dela.", ele me disse. 

Perguntei para eles se realmente estavam certo disso, e se não era eu que tinha errado. Em resposta eles me falaram pra não me preocupar, que podia ficar com meu dinheiro de volta sem problemas. Não estavam de cara feia nem nada. Agradeci gentilmente a menina e ela me sorriu de volta. Caso terminado. 

Akaash ficou abismado. -"What?", dizia ele, -"Isso NUNCA aconteceria na Índia.". Nem no Brasil, falamos eu e Paulo. Eles simplesmente confiaram no que havíamos dito. No Brasil a resposta seria "Infelizmente não podemos fazer nada pra lhe ajudar." 

Cultura Diferente

Esses foram dois casos que acho que ilustram a diferença de pensamento e comportamento dos Italianos. As pessoas confiam no sistema e que as coisas dão certo. Por vezes vejo coisas simples deixadas por aí, como um carrinho de bebê do lado da porta do meu edifício ou bicicletas paradas na rua, sem que ninguém roube (muito difícil no Brasil). Existem muitos estrangeiros, mas apesar de talvez eles serem muquiranas como o Turco que eu comprei uma luva no mercado público, acredito que eles não fariam nada que possam se arrepender depois. Vitrines de lojas com produtos caríssimos ficam sem grade à noite, iluminadas a qualquer hora. É possível andar na rua de noite a qualquer hora sozinho sem enfrentar problemas. 

Já pensou em vitrines sem grades no Brasil? Cada peça principal custa por volta de 1000 euros. Só nessa vitrine deve ter uns 8000 euros. Na foto: Mayara, de Maringá.

Algumas pessoas da AIESEC me falaram que algo perigoso é pegar carona, que existe um medo que seja algum motorista maníaco que possa te assassinar ou algo assim. No entanto, quando perguntados sobre a possibilidade de ser assaltado na rua por aqui e que eu havia lido em algum lugar que poderia ser perigoso, eles falaram que é praticamente impossível (talvez nos estados mais ao sul), se mostrando claramente incrédulos com a possibilidade e ficaram olhando pra cara um do outro tentando imaginar uma situação em que isso poderia ocorrer, sem chegar a um exemplo. Disseram no entanto que é óbvio que deixar coisas câmeras ou celulares largados por aí é dar chance pro azar.

Desde a solicitude em alguém desviar um pouco do caminho pra lhe mostrar aonde é algum lugar, ou lhe dar carona não sendo um maníaco estuprador (como aconteceu com a Yarelisse de Porto Rico que ganhou uma carona de uma mulher até a escola) como mesmo pagarem algo pra você em caso de necessidade, essa é uma riqueza cultural da Itália que seria muito bem-vinda no Brasil.

O que você acha? Deixe seu comentário sobre o assunto abaixo :) 

Um abraço e nos vemos pelo mundo!

domingo, 13 de março de 2011

A (complicada) chegada na bela Itália

Sim, sim, já fazem dias desde que cheguei no velho continente. Treze deles pra ser mais exato. No entanto, uma coisa difícil por aqui é encontrar tempo disponível para os relatos. De qualquer forma, o importante é em algum momento dar um jeito de contar as histórias que vivo e finalmente poder dizer: estou aqui!

Ancona, Itália - capital de Marche.

Chegar aqui, no entanto, não foi fácil.

No momento que eu comprei minha passagem para o intercâmbio eu já havia me tocado de perguntar ao atendente da agência de viagem: -"Dá tempo de ir de um terminal a outro no aeroporto de Madrid?". Eu sabia de antemão que o aeroporto não é nada pequeno e os breves 80 minutos disponíveis para a conexão Madrid-Roma podiam não ser suficientes. "Bom, se tu quiser podemos adiar pra um horário mais tarde.", disse o cara. Porém, isso me faria esperar no aeroporto mais duas horas e meia e ainda iria adiar minha chegada em Ancona para lá por volta da meia-noite. Não querendo atrapalhar a pessoa que fosse me buscar na estação de trem de Ancona, mantive a opção de ter apenas esse tempo entre os vôos.

Uma escolha que se relevou não muito boa. 

O Atraso

Tudo começou no tumultuado aeroporto de Guarulhos, São Paulo. Estava eu aguardando para o embarque e eis que na fila que sempre se forma após a chamada para embarque, comecei a conversar com uma mulher brasileira que era casada e morava na França. Quase ao mesmo tempo, uma garota de Vitória entra na conversa e - pouco tempo depois - nosso belo grupo estava formado por um cara de 28 anos (ou 33, não lembro) natural de Porto, Portugal.

Como a fila demora, conversamos longamente. Eis que ao embarcar cada um ficou em lugares bastante separados. Sem problemas, tirando que meu vizinho era uma espécie de gerente da Fiat sem graça, já que a conversa não se desenvolveu com ele. Vôo lotado, aeromoças servindo um doce pré-embarque, tudo bonito... eis que o amigo Português resolve complicar. Ele simplesmente não gostou do lugar e queria trocar. Não sei se o vizinho de poltrona dele cheirava mal ou alguma coisa do gênero (eu particularmente desconfio que ele queria ficar próximo de mim ou da outra menina por não ter amigos), mas o fato é que ele atravou o vôo em meia hora discutindo com as aeromoças e até com o comissário de bordo.

Depois várias rodadas de discussão entre eles, finito a pendenga, decolamos. Doze horas de viagem São Paulo - Madrid com direito a uma bela janta, café da manhã, e outras dois pequenos "snacks" como chocolates ou coisas do tipo. Cortesia Iberia transportes aéreos, acompanhada de muito café, chá, vinho e cerveja (preferi suco de laranja). 

Conexão Madrid

Pela manhã, por volta das 09h, após o amanhecer, é ligado o monitor onde é possível acompanhar a trajetória do avião em tempo real. Estamos voando a leste de marrocos. O avião iria aterissar dali a duas horas em Madrid (11h da manhã) segundo informação do monitor. A conexão seria às 11:20. Somente com muita sorte pra conseguir pegar o vôo a tempo. Não deu outra, ao aterrissar, aproximadamente 298528718 pessoas se levantaram das poltronas pra sair porta afora. Três minutos depois consigo sair do avião e vou correndo atrás da galera estilo salve-se quem puder! Aproveito as esteiras pra ganhar velocidade pelos corredores enormes do aeroporto até chegar à alfândega.

Esteiras no aeroporto de Madrid - só assim pra chegar a tempo em algum lugar.

Já vinha pensando que ali na alfândega seria o fim. Certamente iriam complicar só pra se divertir vendo a galera vindo que nem Kombi na lomba tendo que frear em cima do cachorro. Que nada, um minuto depois já estava de volta na caravana de Gildo de Freitas sem controle seguindo as placas e correndo até o fatídico terminal HJK. No meio do caminho, um breve descanso no metrô interno que leva as pessoas de um terminal a outro. Chegando lá, corre corre e corre até chegar ao portão número J68 (calcule...) e FINALMENTE descobrir por um brasileiro que já estava estava lá falando com as funcionárias de embarque que o vôo tinha fechado fazia três minutos.

Lindo. Converso com o cara Brasileiro que ali estava (e que me ajudou um monte depois) - chamado Rodrigo - e tocamos pro quisque da Iberia ver o próximo vôo. Seria às 12h50, tranquilo. Aguardamos conversando nos bancos do lado do portão de embarque e tomamos juntos o vôo Madrid-Roma. Por volta das 16h30 estávamos na Itália!

Primeira foto em terras (ou ares) italianas.


Problemas, problemas..

Aeroporto Fiumicino - Roma. Horário 16h30. Esteira de bagagem número oito. Eu e o Rodrigo (o cara que perdeu o vôo junto comigo) estávamos aguardando as malas. Eis que proponho achar um carrinho no aeroporto pra não ficar carregando um monte de bagagem. Saio andando pra lá e pra cá e, em certo momento, vou até a porta da saída dos salões de desembarque (que dá acesso ao lounge) só pra olhar as pessoas do lado de fora e, ao voltar, um segurança me detém e me manda sair da área de desembarque! Dizia ele que eu não podia sair e entrar novamente (maldito, ele me viu indo só até a porta e voltando). Sem qualquer possibilidade de diálogo, fui obrigado a sair da área de desembarque e dar a volta pelo detector. Eu já pensando "Pronto, fodeu, estou sem meu passaporte, sem carteira, nada!", mas por sorte não pediram nenhum documento na hora de passar pela segurança. Entrando novamente ali, vai o mesmo segurança e, junto com um comparsa, pedem meu passaporte (previsível).

Não estava com ele, tinha ficado na bagagem de mão (aprendizado: carregue no bolso ou imprima na testa, não importa onde você vá), a CEM metros dali. Após inúmeras explicações em múltiplas línguas, me orientaram a buscar correndo o documento antes de soltarem leões do Coliseu atrás de mim. Busquei, mostrei, foi só o cara bater o olho nele... "Ok, pode ir". Grandioso.

Voltando à esteira, nada de bagagem (detalhe, era a que tinha todas minhas roupas). Dado momento, chegam outros 400 vôos e vira uma bagunça a esteira. Fazendo uma breve vistoria pela cara das pessoas que eu lembrava do vôo, vi que a galera tinha ido dar queixa da bagagem perdida na AviaPartner Alliance - todas as companhias com parceria entre si pela marca AviaPartner resolvem as pendengas por ali. Uma hora depois (onde cheguei até a visitar o depósito), faço a solicitação de perda com o único endereço que tenho em Ancona e saio dali uma hora e meia depois junto com o Rodrigo, que mora na Itália faz já algum tempo e que estava voltando pra pegar a cidadania italiana. 

O Caixa Automático

Procurando um Shuttle Bus que faz a rota Aeroporto/Centro Histórico/Estação Termini por oito euros, apareceu mais um problema básico: eu estava sem dinheiro vivo. Obviamente ônibus não se paga com cartão de débito (burro). Entramos novamente no aeroporto e fomos até um pequeno bunker de vidro com caixas automáticos dentro. Ali havia um dispositivo pra passar o cartão e permitir a entrada ou não. Era a hora de ver se o Visa Travel Money funcionaria! Funcionou. Só que dentro daquele lugar o desastre aconteceu: o caixa automático engole completamente o cartão quando você o coloca e, no meu caso, a máquina o engoliu e travou!

Nada mais funcionava. Nenhum botão. O Rodrigo só falava "Caraaa, cê é louco! Puuutz! E agora?" e eu ali, cabeça a mil pensando no que fazer. Não havia muito o que fazer, sair do caixote de vidro onde estavam os caixas significava não voltar uma vez que era preciso o cartão pra habilitar a entrada e o aeroporto estava fechando (a sala de informações já havia fechado pouco tempo antes). Quatro IMENSOS minutos depois, quando havíamos decidido ligar para o 0800 estratégicamente colocado na máquina, o milagre acontece: a máquina destrava e aparece a tela de interação com o usuário! Rapidamente retiro uma boa quantidade de dinheiro pra valer a taxa de 2,50 euros pra cada saque bancário.

Saindo do aeroporto novamente, havíamos perdido horário o Shuttle Bus. Outro estava no lugar, porém os "vendedores" estavam tentando nos convencer que aquele era melhor por ser mais barato. O Rodrigo preferiu pegá-lo porque o deixaria em uma estação diferente que ele deveria chegar no fim das contas. Na despedida agradeci muito por toda a ajuda com a língua Italiana que ele me deu e seguimos separado. Peguei o ônibus às 18h45 pra uma viagem de mais de uma hora até o centro de Roma. Estava cansado de todo o processo no aeroporto e a noite mal-dormida no avião.

Dentro do ShuttleBus na frente do Aeroporto Fiumicino, Roma.

Estação Termini

A Estação Termini (a estação central de trem de Roma) é incrível! Assim como é incrível também o fato de eu não ter tirado fotos dela, mas estava com pressa porque ainda precisava descobrir como comprar passagens e pegar o primeiro trem. Perguntei pra alguém onde ficavam as bilheterias usando meu Italiano básico porque a pessoa que abordei não entendi inglês. Resposta em italiano, não entendi nada e, óbvio, não encontrei o lugar. Perguntei pra outro que me apontou pra máquinas automáticas disponíveis em inglês.
 
Comprei minha passagem para as 21h00 e descobri que não tinha o terminal no bilhete e que teria validá-la. Antes porém fui estrategicamente comer um McDonalds fora da estação pra manter a vida. Voltando à estação, pra validar, observei a população até que vi homem inserindo a passagem em pequenas máquinas amarelas grudadas nos pilares da estação. Repeti o processo duas vezes, dos dois lados, só pra garantir (a multa é pesada se tem pegam sem validar a passagem). Tentei então usar o telefone público pra ligar pro único telefone que eu tinha em Ancona e avisar a que horas eu chegaria. Ficou só na tentativa. Dois telefones públicos diferentes comeram dois euros em moedas sem completar a ligação nem retornar meu dinheiro! Lamentável.

 Sem ter como avisar da minha chegada, resolvi deixar pra depois o fato de que ninguém iria me buscar à 1h da manhã na estação e comecei então a perguntar como faria pra saber onde iria "estacionar" o trem pra Ancona uma vez que tinha dezenas de terminais. Após algumas investidas sem sucesso (fiquei surpreso como tem poucos italianos que falam e entendem inglês), conheci um cara italiano com uns 20 anos que falava inglês e ia pegar o trem de Ancona também. Dyllan era o nome dele. Nascido na Itália, morava nos Estados Unidos mas vivia sem destino pelo mundo desde os 16 anos! Incrível a história da vida dele.

Embarcamos e fomos juntos no trem praticamente vazio. La fora, escuridão total. Só havia o barulho do trem andando em alta velocidade nos trilhos e o uivo do vento. Pra completar ainda chovia fraco (parecia o cenário perfeito de um filme de suspense, a qualquer momento podia entrar alguém pela porta e matar todo mundo). De tempo em tempo, o trem parava em alguma cidadezinha pequena e inóspita, mas não havia como saber qual era porque não tinha avisos sonoros no nosso vagão. Nem como ver placas do lado de fora.

Viagem de quatro horas em meia, dormimos. Em certo momento alguém puxa meu casaco: era o bilheteiro. Queria conferir nossas passagens. Entreguei a minha e fui avisado instantaneamente que estava na primeira classe e deveria sair dali e ir pra segunda. Mesma coisa para o Dyllan também. Pegamos nossas malas e nos mudamos, eu sem saber que tivemos muita sorte porque segundo me contaram aqui em Ancona, nesse tipo de situação lhe obrigam a pagar a passagem da primeira classe.

Logo Dyllan viu algo errado: havia passado sua parada. Ele deveria ter desembarcado meia hora atrás e pego uma conexão pra Peruggia. Rapidamente nos despedimos e ele desembarcou totalmente no meio do nada em uma cidadezinha que devia ter aproximadamente 1000 habitantes. Queria saber o que ele fez pra chegar a Peruggia àquela hora da noite. Enfim, estava eu sozinho agora chegando a Ancona, porém sem saber a que altura estava, já que os avisos sonoros (sim, na segunda classe eles existiam) falavam o nome de cidades completamente desconhecidas. De repente me lembrei do ótimo guia da Folha de São Paulo que comprei em Santa Maria, falando em detalhes sobre todas as regiões da Itália. Após uma breve consulta nos ótimos e providenciais mapas, descobri a rota e pude acompanhar o trem no mapa em cada cidade até chegar o meu destino final. 

Finalmente, Ancona!

Andar com o trem à beira do mar adriático vendo as ondas na escuridação e logo depois ver as luzes da cidade de ancona surgindo à frente, a cidade erguida em um morro que se eleva pra dentro do mar, com certeza foi uma visão e sensação incrível! "Cheguei!", pude finalmente dizer.

Estava preocupado se iria ter alguém pra me buscar na estação. Eu havia falado que estaria às 20h30 em Ancona, mas estava chegando 00h45, mais de quatro horas atrasado. Finalmente o trem chega na estação e eu saio acompanhando outros passageiros. Estava um frio muito tenso! Ando e passo por duas pessoas que ficam me olhando. Paro por um estratégico momento e segundos depois eles vêem até mim: -"Bruno?". -"Yes, it's me. Noemi?". -"Yes!".

Quase não acreditei. Eles tinham ido às 18h (horário combinado) na estação. Como eu não cheguei, vieram às 20h30 e, como eu não cheguei também, vieram no último trem do dia ver se eu finalmente chegava. AIESEC Ancona de parabéns pela solicitude!

Então, finalmente! São e salvo em Ancona (sem mala, ok), mas vivo e inteiro.

Me levaram então abaixo de chuva pro carro e me deixaram lá na casa dos outros intercambistas (trainee's house) por uma noite, antes de me levar para minha host family. Fui recebido muito bem (todo os intercambistas lá acordaram pra me cumprimentar) e pude finalmente tomar um looongo banho pra relaxar antes de dormir . Melhor noite de sono da vida.

Vista do apartamento dos intercambistas na primeira noite.


Essa foi minha chegada na Itália. Espero que tenham gostado. Nessa próxima semana, mais detalhes e histórias sobre tudo por aqui. Quem quiser que eu escreva sobre algo específico, peça nos comentários que eu logo escrevo!

Um abraço e nos vemos pelo mundo.